ipi-classificacao-freezer
  • Acórdão: 3402-012.366
  • Processo: 11274.720419/2021-11
  • Câmara: 4ª Câmara — 2ª Turma Ordinária
  • Relator: Arnaldo Diefenthaeler Dornelles
  • Sessão: 27 de novembro de 2024
  • Resultado: Negado provimento por unanimidade
  • Valor em disputa: R$ 127.589.971,99
  • Período: Julho/2018 a setembro/2020

A Mercofricon S/A, fabricante de equipamentos conservadores de alimentos (freezers), foi derrotada no CARF em recurso contra autuação por infrações de classificação fiscal de IPI. O tribunal manteve por unanimidade o lançamento de ofício, a multa de ofício e os juros de mora, consolidando o entendimento de que freezers devem ser classificados conforme a capacidade e forma do equipamento — não na posição genérica 8418.50.90 (Outros), como a empresa havia declarado.

O Caso em Análise

A Mercofricon S/A atua na indústria de equipamentos de refrigeração, especificamente na fabricação de freezers horizontais e verticais com capacidades variadas. Durante autuação pelo período de julho/2018 a setembro/2020, a Fiscalização reconstruiu a escrita fiscal da empresa e identificou infrações relacionadas à classificação fiscal inadequada de seus produtos de refrigeração.

A Fazenda Nacional lançou créditos tributários totalizando R$ 127.589.971,99, distribuídos entre:

  • IPI: R$ 60.781.300,55
  • Multa de ofício (I): R$ 45.585.975,24
  • Multa de ofício (II): R$ 17.217.091,40
  • Juros de mora: R$ 4.005.604,80

O contribuinte contestou o lançamento em primeira instância, pleiteando a realização de diligência técnica (perícia/laudo pericial) para melhor apuração da classificação dos equipamentos. Ao recorrer ao CARF, manteve essa argumentação.

As Teses em Disputa

Matéria 1: Indeferimento da Diligência Técnica

Tese do Contribuinte: Necessidade de realização de diligência e perícia técnica para melhor aferir a classificação fiscal dos equipamentos de refrigeração, argumentando que a análise documental não seria suficiente para determinar a correta posição na Tabela de Incidência do IPI (TIPI).

Tese da Fazenda Nacional: Desnecessidade de perícia, sendo suficiente a análise documental e a aplicação das normas técnicas vigentes (Notas Explicativas do Sistema Harmonizado) para classificar os equipamentos conforme sua capacidade e forma.

Matéria 2: Classificação Fiscal — Código TIPI

Tese do Contribuinte: Classificação dos equipamentos no código NCM 8418.50.90 (Outros), com alíquota 0% na TIPI, com base em entendimento anterior da própria Fiscalização.

Tese da Fazenda Nacional: Classificação dos equipamentos conforme os códigos TIPI 8418.30.00 (equipamentos horizontais) e 8418.40.00 (equipamentos verticais), considerando a capacidade e a forma do equipamento como critérios essenciais de diferenciação.

Matéria 3: Glosa de Crédito de IPI — Certeza e Liquidez

Tese do Contribuinte: Direito ao crédito de IPI sobre material de uso e consumo adquirido pela empresa, com base em documentação fiscal adequada e regular.

Tese da Fazenda Nacional: Glosa do crédito por falta de certeza e liquidez do crédito, com incumprimento do ônus de prova pelo contribuinte em demonstrar a existência e o valor do crédito alegado.

A Decisão do CARF

1. Pedido de Diligência Técnica — Indeferido

O CARF indeferiu o pedido de diligência e perícia técnica com base no art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, que autoriza a autoridade julgadora a recusar pedidos de perícia quando entendê-los desnecessários para o julgamento do processo.

“PEDIDO DE PERÍCIA E DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. ART. 18 DO DECRETO N. 70.235/72.”

A fundamentação adotada pelo tribunal reconhece que a análise documental — combinada com as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado e os critérios técnicos já consolidados — é suficiente para determinar a correta classificação dos equipamentos, dispensando a perícia requerida.

2. Classificação Fiscal — Critério: Capacidade e Forma

A decisão mais relevante do CARF estabelece que a classificação dos freezers não deve ser genérica, mas sim diferenciada conforme a capacidade (em litros) e a forma (horizontal ou vertical) do equipamento.

“Equipamento conservador de alimento horizontal, de capacidade superior a 400 litros e não superior a 800 litros, classifica-se no código TIPI 8418.30.00. Equipamento conservador de alimento horizontal, de capacidade não superior a 400 litros, classifica-se no código TIPI 8418.30.00 Ex 01. Equipamento conservador de alimento vertical, de capacidade superior a 400 litros e não superior a 900 litros, classifica-se no código TIPI 8418.40.00. Equipamento conservador de alimento vertical, de capacidade não superior a 400 litros, classifica-se no código TIPI 8418.40.00 Ex 01.”

Esta decisão consolida um critério objetivo e verificável: a capacidade do equipamento e sua orientação (horizontal ou vertical) determinam a posição na TIPI. Equipamentos classificados genericamente como “Outros” (8418.50.90) pela empresa foram enquadrados nas posições específicas e de alíquota mais elevada.

3. Glosa de Crédito de IPI — Ônus da Prova

Quanto à glosa do crédito de IPI sobre material de uso e consumo, o CARF reafirmou o princípio do ônus da prova tributária:

“Incumbe a quem alega o crédito o ônus de provar a sua existência (certeza do crédito), bem como de demonstrar o seu valor (liquidez do crédito).”

Fundamentado no art. 154 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966), o acórdão entendeu que o contribuinte não cumpriu o ônus de prova necessário para demonstrar a existência e o valor do crédito alegado sobre material de uso e consumo, justificando a glosa integral.

Detalhamento da Classificação Fiscal

A tabela abaixo sintetiza as quatro situações de classificação estabelecidas pelo CARF, comparando a posição alegada pelo contribuinte com a definitivamente adotada:

Produto Forma Capacidade NCM Contribuinte NCM CARF Resultado
Freezer Horizontal > 400L e ≤ 800L 8418.50.90 8418.30.00 Favorável à Fazenda
Freezer Horizontal ≤ 400L 8418.50.90 8418.30.00 Ex 01 Favorável à Fazenda
Freezer Vertical > 400L e ≤ 900L 8418.50.90 8418.40.00 Favorável à Fazenda
Freezer Vertical ≤ 400L 8418.50.90 8418.40.00 Ex 01 Favorável à Fazenda

Fundamento técnico: As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (SH/OMA) estabelecem que equipamentos de refrigeração por compressão devem ser classificados conforme critérios objetivos de capacidade (volume em litros) e forma (horizontal ou vertical). A posição 8418.50.90 (“Outros”) é residual e não se aplica quando o equipamento se enquadra nas especificações técnicas das posições 8418.30.00 (horizontais) e 8418.40.00 (verticais).

Impacto Prático

Esta decisão é relevante para fabricantes e importadores de equipamentos de refrigeração em âmbito nacional. O CARF consolidou que:

  • A classificação genérica (8418.50.90) não é adequada para freezers que atendem aos critérios de capacidade e forma das posições 8418.30.00 e 8418.40.00, independentemente do entendimento anterior da Fiscalização
  • A capacidade em litros é critério objetivo e mensurável — empresas devem documentar e classificar produtos conforme essa métrica
  • Diligência técnica não é automática no processo administrativo — a Fazenda e o CARF podem indeferir perícia quando a documentação existente for suficiente para aplicação das normas
  • Creditamento de insumos exige comprovação rigorosa — a glosa por falta de certeza e liquidez pode ser mantida se o contribuinte não cumprir adequadamente o ônus de prova

A decisão por unanimidade reforça que este é o entendimento consolidado do CARF e não representa divergência interna. Contribuintes em posição similar devem revisar a classificação de seus produtos considerando a capacidade real e a orientação (horizontal/vertical) dos equipamentos.

Conclusão

O CARF negou provimento integral ao recurso da Mercofricon, mantendo a autuação pela Fazenda Nacional. A decisão reafirma que freezers e equipamentos conservadores de alimentos não podem ser classificados genericamente como “Outros” quando atendem aos critérios técnicos de capacidade e forma para as posições específicas 8418.30.00 (horizontais) e 8418.40.00 (verticais). O tribunal também indeferiu a perícia requerida, reconhecendo que análise documental e normas técnicas são suficientes para classificação, e manteve a glosa de crédito de IPI por falta de comprovação adequada do contribuinte.

Para empresas do setor de refrigeração, esta decisão sinaliza a importância de classificar cada modelo de equipamento conforme sua capacidade real e orientação física, com documentação técnica que comprove esses atributos. Pleitos de redução de alíquota ou isenção baseados em classificação residual (8418.50.90) enfrentarão resistência na administração tributária.

Gustavo Ribeiro
CEO da Tributo Devido

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Quer acessar conteudo exclusivo sobre direito tributario?

Cadastre-se gratuitamente e receba nossos artigos e analises.

Cadastre-se gratis →