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Dedução de devoluções de vendas na base de cálculo do PIS/PASEP e COFINS no regime cumulativo

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A dedução de devoluções de vendas na base de cálculo do PIS/PASEP e COFINS no regime cumulativo é um tema que gera muitas dúvidas entre os contribuintes, especialmente quando o valor das devoluções supera o faturamento do período. A Receita Federal do Brasil (RFB) trouxe esclarecimentos importantes sobre essa questão por meio da Solução de Consulta DISIT/SRRF04 nº 4.002, de 6 de janeiro de 2023.

  • Tipo de norma: Solução de Consulta
  • Número/referência: DISIT/SRRF04 nº 4.002
  • Data de publicação: 6 de janeiro de 2023
  • Órgão emissor: Divisão de Tributação da 4ª Região Fiscal da Receita Federal do Brasil

Introdução

Esta Solução de Consulta aborda a possibilidade de dedução de valores relativos a vendas canceladas e devoluções de mercadorias da base de cálculo do PIS/PASEP e da COFINS no regime cumulativo, especialmente quando tais valores superam o total das receitas do período de apuração. A orientação é aplicável a todos os contribuintes sujeitos ao regime cumulativo dessas contribuições e produz efeitos a partir da data de sua publicação.

Contexto da Norma

O caso analisado pela RFB envolveu uma empresa que realizou uma venda em março de 2022, no valor de R$ 316.080,00, recolheu os tributos devidos naquele mês e, posteriormente, em abril de 2022, recebeu a devolução total da mercadoria. Como seu faturamento em abril foi de apenas R$ 169.006,50, a base de cálculo das contribuições ficou negativa após a dedução da devolução.

A consulente questionou se poderia utilizar esse “saldo negativo” para deduzir das bases de cálculo das contribuições em períodos subsequentes, considerando que já havia recolhido os tributos incidentes sobre a venda devolvida.

Para responder a essa questão, a RFB baseou-se em diversas Soluções de Consulta anteriores (COSIT nº 40/2014, nº 4/2017, nº 27/2018 e nº 150/2019), que já haviam analisado situações semelhantes e estabelecido entendimentos consolidados sobre o tema.

Principais Disposições

De acordo com a Solução de Consulta, o entendimento da RFB sobre a dedução de devoluções de vendas na base de cálculo do PIS/PASEP e COFINS no regime cumulativo pode ser resumido em três pontos principais:

1. Possibilidade de dedução de valores que excedam a receita do período: Os valores relativos a vendas canceladas e devoluções de vendas que superem o total das receitas dos respectivos períodos de apuração podem ser deduzidos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS apuradas no regime cumulativo.

2. Momento da dedução: Essas deduções podem ser efetuadas a partir do mês em que seja reconhecido o cancelamento ou a devolução, conforme o regime de reconhecimento de receitas adotado pelo contribuinte (caixa ou competência), não havendo impedimento para seu uso em períodos subsequentes.

3. Tratamento de valores referentes a períodos anteriores: Se tais valores forem referentes a períodos anteriores e não tiverem sido utilizados, eles poderão ser deduzidos nos períodos seguintes à sua apuração. No entanto, é expressamente vedada a repetição de indébito, restituição, ressarcimento ou compensação do tributo já quitado anteriormente, relativo à venda cancelada por devolução de mercadorias.

Fundamentação Legal

A Solução de Consulta baseia-se nos seguintes dispositivos legais e normativos:

  • Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXVI (proteção ao ato jurídico perfeito)
  • Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional), art. 144 (aplicação da lei no tempo)
  • Lei nº 9.718, de 1998, arts. 2º e 3º (base de cálculo do PIS/PASEP e da COFINS no regime cumulativo)
  • Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 12 (conceito de receita bruta)
  • Soluções de Consulta COSIT nº 40/2014, nº 4/2017, nº 27/2018 e nº 150/2019 (precedentes sobre o tema)

A decisão apoia-se especialmente no art. 3º, § 2º, inciso I, da Lei nº 9.718/1998, que permite a exclusão das vendas canceladas da base de cálculo do PIS/PASEP e da COFINS no regime cumulativo.

Impactos Práticos

O entendimento firmado na Solução de Consulta traz importantes implicações práticas para os contribuintes:

Flexibilidade no aproveitamento das deduções: As empresas podem aproveitar o valor das vendas canceladas ou devoluções em períodos subsequentes quando esse valor superar a receita do período em que ocorreu o cancelamento ou devolução. Isso evita a perda do direito à dedução quando o valor a ser excluído é superior à base de cálculo do período.

Impossibilidade de recuperar tributos já pagos: Por outro lado, é importante destacar que a empresa não poderá pedir a restituição, ressarcimento ou compensação dos tributos já recolhidos sobre vendas que posteriormente foram canceladas ou devolvidas. O mecanismo disponível é apenas a dedução nas bases de cálculo de períodos futuros.

Controle contábil e fiscal adequado: As empresas precisam manter um controle rigoroso das vendas canceladas e devoluções, especialmente quando há saldos a serem aproveitados em períodos futuros, para garantir que todas as deduções sejam corretamente aplicadas e documentadas.

Exemplo Prático

Para ilustrar a aplicação do entendimento, consideremos o caso apresentado na própria consulta:

  • Março/2022: Venda de R$ 316.080,00 → PIS (0,65%) = R$ 2.054,52 e COFINS (3%) = R$ 9.482,40
  • Abril/2022: Faturamento de R$ 169.006,50 → Base antes da dedução: PIS = R$ 1.098,54 e COFINS = R$ 5.070,20
  • Devolução recebida em abril/2022: R$ 316.080,00
  • Base após dedução: PIS = -R$ 956,00 e COFINS = -R$ 4.412,20 (valores negativos)

Conforme a Solução de Consulta, a empresa poderá deduzir esses “saldos negativos” das bases de cálculo das contribuições em períodos subsequentes (maio/2022 em diante) até que sejam integralmente aproveitados. Não poderá, entretanto, pedir ressarcimento ou compensação dos tributos já recolhidos em março/2022.

Análise Comparativa

É importante notar que o entendimento sobre a dedução de devoluções de vendas na base de cálculo do PIS/PASEP e COFINS no regime cumulativo é consistente com o tratamento dado a situações similares em outros tributos, como o IRPJ e a CSLL apurados pelo lucro presumido.

A Solução de Consulta destaca o paralelismo entre esses regimes, uma vez que todos se baseiam no conceito de receita bruta estabelecido no art. 12 do Decreto-Lei nº 1.598/1977. Assim, o mesmo mecanismo de dedução em períodos subsequentes aplicável ao lucro presumido também se estende às contribuições no regime cumulativo.

Considerações Finais

A Solução de Consulta DISIT/SRRF04 nº 4.002/2023 traz segurança jurídica aos contribuintes ao confirmar a possibilidade de deduzir valores de vendas canceladas e devoluções que excedam a receita do período em bases de cálculo de períodos subsequentes.

Esse entendimento representa uma aplicação lógica e razoável da legislação tributária, evitando que o contribuinte seja prejudicado quando o valor a ser excluído supera sua receita em determinado período. Ao mesmo tempo, respeita o princípio do ato jurídico perfeito, estabelecendo que tributos já recolhidos sobre vendas posteriormente canceladas não podem ser objeto de repetição, restituição, ressarcimento ou compensação.

É fundamental que as empresas mantenham controles adequados para rastrear essas deduções e garantir seu aproveitamento integral nos períodos subsequentes, bem como documentação que comprove a efetiva ocorrência das devoluções ou cancelamentos de vendas.

A Solução de Consulta pode ser consultada na íntegra no site da Receita Federal, através do link: http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/link.action?idAto=128288.

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